segunda-feira, 2 de julho de 2012

Carta Aberta ao Conar

Duas recentes medidas do Conar referentes aos abusos da publicidade voltada para as crianças nos deixaram preocupados e ainda mais descrentes da atuação deste órgão com relação à proteção da infância.

A primeira foi a decisão de sustar a campanha da Telessena de Páscoa por anunciar para o público infanto-juvenil um produto que só pode ser vendido para maiores de 16 anos (de acordo com regulamentação da SUSEP). A segunda foi a advertência dada pelo Conar à Ambev, com relação ao ovo de páscoa de cerveja da Skol.

Ambas atitudes do Conar seriam dignas de aplausos – se tivessem sido tomadas quando as campanhas publicitárias estavam no ar, na Páscoa, em março. Mas o Conar só agiu em junho, quando as campanhas já não eram mais veiculadas.
Com isso, não houve nenhum impedimento para que a mensagem indevida da Telessena atingisse impunemente milhões de brasileirinhos e que a Ambev promovesse bebida alcoólica através de um produto de forte apelo às crianças. A advertência à Skol é ainda mais ineficaz, pois não impede que no próximo ano, produto semelhante seja oferecido.

O Movimento Infância Livre de Consumismo vê nessas decisões a comprovação de que o atual sistema de autorregulamentação praticado pelo mercado publicitário brasileiro é lento, omisso e ineficiente. Fato ainda mais grave quando se trata da defesa do público infantil.

Por isso, exigimos que a publicidade infantil sofra um controle externo como todas as atividades empresariais. Reiteramos nossa postura de que, sem leis e punição, jamais teremos uma publicidade infantil mais ética.

Nós, mães e pais, exigimos respeito à infância dos nossos filhos e solicitamos que estas duas atuações não constem dos autos do Conar como casos de sucesso. Contabilizar pareceres dados depois que as campanhas saíram do ar, como exemplo da firme atuação do Conar, é propaganda enganosa. E isso contraria o tal Código de Autorregulamentação que os publicitários insistem em tentar nos convencer que funciona.


(Este texto faz parte de uma blogagem coletiva proposta pelo Movimento Infância Livre de Consumismo juntamente com blogs parceiros. Este movimento é composto por pais e mães que desejam uma regulamentação séria e eficiente da publicidade voltada para crianças.

Para saber mais acesse: http://www.infancialivredeconsumismo.com.br/)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Escuridão que ilumina!

Há quem passe assim seus dias, como almas-buraco-negro. Absorvem tudo que tocam, se adensam e se vão. Seguem em frente cumprindo o desígnio a que se propõem todos os dias ao se levantarem de seus féretros. Percebem ou não o desastre ao redor de si, a antropofagia que os nutre, os há dos dois jeitos. Bem o sei. De um ou de outro jeito, é inefável seu destino: destruição por todo lado que olharem, aridez, ausência de recurso no final. Qual será o fim de um buraco negro? Uma imensa explosão? Um mísero “puf”? O não-som? Não arrisco.


Esta imagem veio daqui
Não é com amargura que me vem essa reflexão. É com a alma iluminada por tons e cores de vida. Toda vida é mestra. Grata por ter estado em face e em frente, por conhecer lados e vertentes desafiadores. Por resvalar, ora no abismo, ora no limbo. E por sempre deles escapar. Certeza de agregar percepção, de desistir de olhar para a escuridão procurando luz. A cor ao meu redor existe, reconheço. O movimento é para frente, com os braços abertos, e jorram cores em jatos iluminados, em fios que brilham enlaçando e costurando alianças que libertam.

Sereno que cai. Não saia no sereno, menina. Agasalhe-se e cubra os pensamentos, leve-os bem acolhidos e aconchegados. Daqui a pouco será dia de novo, e nessa hora verá outros braços recheados de sons e cores que junto das suas serão jardim. Serena.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Criação com apego: mais amor, menos preconceito

Quando estava grávida, gostava de olhar para uma imagem que muita gente conhece, de uma gato rajado adulto abraçado com um filhote. Tá, admito, rsss... eu sou gateira. Mas a imagem fazia brotar em mim uma emoção intensa, me via assim, agarradinha com meu bebê. Imprimi a imagem e a coloquei sobre o monitor do computador no trabalho. Lá ela ficou, meses a fio, até eu ir para casa de licença.



O nascimento conturbado da Sophia - papo para outra hora - deu lugar, em peso e importância, para a amamentação. Foi ali que de fato começou a jornada de maior aprendizado da minha vida, sem data para acabar... Embora tivesse lido muito mesmo sobre aleitamento materno, nunca tinha ouvido falar de criação com apego, que é como temos traduzido o conceito de attachment parenting. Mas, uma vez iniciada a experiência deliciosa de alimentar e ver crescer o ser humano mais importante do mundo com meu próprio corpo, a intuição foi falando mais alto e me apontando atitudes que nunca antes tinham sequer passado pelo pensamento.



Foi assim que desafiei as recomendações e só levei ao pediatra quando tinham se passado 35 dias, pois não queria que ninguém abalasse a minha ainda frágil confiança na capacidade do meu corpo de alimentar minha menina. Foi também a causa de ir me humilhar perante a chefe e pedir que ela permitisse a presença daquele bebê tranquilo no setor durante a adaptação na creche. Não, eu não tinha opção. Devo ter sido muito convincente, pois ela topou!



O aleitamento foi um sucesso e se prolongou até um ano e sete meses, quando a menina me olhou nos olhos um dia pela manhã e disse: "não quero peito". E por muito tempo não quis mais mesmo. Assim, totalmente autônoma para decidir. Ih, eu fiquei beeeemmm de luto, rssss...



Ela agora tem quase nove anos. Sabe muitas coisas, me ensina várias. Outro dia me ensinou a jogar xadrez. Fala tudo que pensa e sente, às vezes com muita força. Está crescendo depressa, me surpreende com seus comentários sobre a vida e as coisas. Ah, foi lindo vê-la com o megafone na mão na Paulista, outro dia: " a mulherada desse país merece ter obstetriz!" . De vez em quando me pede pra mamar, rssss.



É, eu fui ler sobre criação com apego apenas recentemente. E só então descobri que fazia coisas que já tinham sido nomeadas. E confesso uma coisa: nunca me senti mal de andar na contra-mão nesse campo, sabe? Não sei se porque sou "metida", se é pelo gosto pelas "causas" contra-hegemônicas, se é a idade... Ou tudo junto, talvez.



Sei lá. É que quando olho para ela vejo aquela foto dos gatinhos abraçados. Não saberia fazer de outro jeito. Uma amor imenso.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Brindando a mim e a você, por mais um dia que vai nascer!



Esta é uma das canções da minha vida... uma daquelas que, como diz Milton Nascimento, "cabem tão dentro de mim, que perguntar carece: como não fui eu que fiz?" Deixo-a aqui, nesta hora propícia.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Em se plantando, tudo dá.

Muitos meses atrás, quando apresentei a mim mesma esta ferramenta, pensava em usá-la para retornar a uma prática acalentada na adolescência e no início da vida adulta: a escrita do diário. Embora já tivesse experimentado escrever memórias frescas e minha autobiografia aos nove anos (!), foi por volta dos 14, incentivada pelo Pe. Cabada, que comecei a desenvolver o gosto pela coisa.

Nem tão diárias assim, minhas lembranças do dia iam sendo registradas na medida em que fatos marcantes tocavam-me a alma, com ou sem dor, e desencadeavam a costumeira avalanche de sentimentos desenfreados que desaguavam legal no papel. Irmãos mais afoitos desses textos, vinham também poemas que, sem paciência de esperar chegar em casa para o registro organizado, acabavam escritos em qualquer folha de papel. Os que não se perderam por aí, restam guardados em uma pasta, aguardando serem trazidos para cá.

Enfim, escrevia muito, mas um dia parei. E o fato de ter uma nova ferramenta para publicar os pensamentos não foi suficiente para trazer de volta essa fluência da escrita, tão instrumental para a garota que não tinha muita capacidade de se expressar oralmente. Não é que não fosse falante, rss, quem me conhece sabe que costurar meus lábios equivaleria a me matar. Ainda estou mergulhando nisso, que não sei ao certo o que é, mas que me calou as mãos por anos a fio, e que parece estar se despedindo de vez. Aliás, se eu demorar muito a descobrir o que foi, nem vai dar tempo de saber.

Mas se não descobrir, tanto faz. Eu voltei. A semente foi lançada.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Contra o fechamento do Curso de Obstetrícia da USP Leste



Nós, da Parto do Princípio, vimos por meio desta manifestar o nosso pleno apoio às ações pela manutenção do Curso de Obstetrícia da USP Leste.
A Parto do Princípio é uma rede de mulheres, consumidoras e usuárias do sistema de saúde, que oferece informações sobre gestação e parto baseadas em evidências científicas e recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Contamos hoje com mais de 200 pessoas trabalhando voluntariamente, em 21 Estados do Brasil, na divulgação dos benefícios do parto ativo e dos riscos de cesarianas desnecessárias.
Acreditamos que a mulher deve ser a protagonista de sua história e, assim, deve ter poder de decisão sobre seu corpo e liberdade de movimentos e de escolhas para dar à luz. Para tanto, no pré-natal, no parto e no pós-parto, a mulher precisa estar acompanhada por profissionais que, acima de tudo, estejam comprometidos com a fisiologia do nascimento e que respeitem a gestação, o parto e a amamentação como processos naturais e instintivos. Nesse sentido, foi com muita alegria que em 2005 acompanhamos a abertura do curso de Obstetrícia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), no campus da Universidade de São Paulo conhecido como USP Leste.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a obstetriz com formação de nível superior representa boa estratégia para promover atenção adequada ao parto e nascimento. Essa profissional é capacitada para prestar assistência a gestações e partos de baixo risco e é bastante solicitada em muitos países desenvolvidos. No Brasil, seu papel é ainda mais relevante, diante das elevadas taxas de morbi-mortalidade materna e neonatal. Cabe lembrar que, a despeito dos avanços realizados na área da saúde, tanto o Estado de São Paulo como o país estão muito distantes de alcançar o Objetivo do Desenvolvimento do Milênio de número cinco, relativo à melhoria da saúde materna.
Extinguir o curso de Obstetrícia é um retrocesso e constitui desrespeito a toda a sociedade, na medida em que representa a manutenção do atual sistema de assistência, que apresenta elevada cobertura hospitalar, porém, resultados perinatais insatisfatórios.
Esperávamos que o Grupo de Trabalho para “Estudo das Potencialidades, Revisão e Remanejamento de Vagas nos Cursos de Graduação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP” considerasse as evidências científicas sobre o parto e o nascimento e as experiências de outros países com bons indicadores de saúde materno-infantil. Contudo, cientes do conteúdo do relatório final do Grupo de Trabalho, observamos que os “problemas” apontados (destacados a seguir) não se sustentam.

“[...] problemas com os quais o curso convive e que impactam fortemente seu funcionamento”:

“O excesso de cesarianas que atingem principalmente os hospitais que compõem o sistema de saúde suplementar (considerados hospitais privados), onde em alguns deles as taxas de cesáreas atingem valores da ordem de 97%, indicador considerado ruim, pela OMS;”
• “A capacitação dos profissionais médicos para a realização de cesariana em detrimento de parto normal devido a múltiplos fatores (culturais, organizacionais, de qualidade de vida do profissional, econômica e outras);”

A OMS recomenda que os partos cesarianos não ultrapassem 15% dos nascimentos. Assim, se os hospitais privados exibem valores da ordem de 97% de cesáreas, trata-se de um dado alarmante, que demanda intervenção imediata. A formação médica focada na cesariana torna o quadro ainda mais preocupante. Diante disso, seria apropriado que as políticas públicas favorecessem e promovessem a atuação de profissionais aptos a prestar assistência adequada ao parto normal.

A lógica cultural vigente, adquirida pela população nas últimas décadas, a favor da cesariana, pois existe a crença que este procedimento oferece maior segurança. A mudança desta lógica necessitará de muito tempo e intervenções adequadas;

Diante da crença infundada de que a cesariana oferece maior segurança, seria adequado formar mais profissionais aptos a desmistificar o senso comum. Vale lembrar que a “lógica cultural vigente” é construída e realimentada diariamente com base nas experiências pessoais. Assim, para modificar tal “lógica cultural”, é preciso oferecer experiências diversas das que são possíveis atualmente.

A dificuldade de capacitação dos profissionais envolvidos com esta área devido à queda da natalidade;

Apesar da queda da natalidade, o modelo intervencionista vigente na assistência ao parto continua agredindo a saúde de mães e bebês. Ainda faltam profissionais capacitados para a assistência adequada ao parto normal. De acordo com o relatório de fevereiro de 2011 da Fundação Seade, um terço dos óbitos perinatais ocorridos em 2009 no Estado de São Paulo foi classificado como mortes reduzíveis com adequada atenção ao parto, 15,7% como mortes reduzíveis com adequado controle na gravidez, 14,2% como mortes reduzíveis com diagnóstico e tratamento precoces. Diante desse cenário, profissionais formados pelo curso de Obstetrícia têm papel fundamental e urgente não só no Estado de São Paulo, como em todo o país.

A “judicialização” da medicina onde, se algo não desejável acontecer no momento do parto, o questionamento dos familiares envolvidos é sempre com relação ao porque a não indicação de cesariana e a busca por ações judiciais para responsabilização dos profissionais e instituições envolvidos.

A solução para a judicialização da medicina não reside na extinção de uma carreira acadêmica. Entendemos que todo profissional de saúde deve garantir a segurança das pessoas que atende e, para tanto, suas práticas devem estar embasadas nas melhores evidências científicas disponíveis. Além disso, consideramos que todo profissional de saúde deve ser capacitado para dialogar e ouvir as demandas das pessoas que atende. No caso da assistência ao parto, é urgente que se estabeleça tal relação dialógica, em que a mulher e seu acompanhante recebam informações claras e acessíveis a respeito do ciclo gravídico-puerperal. Para os casos em que intervenções médicas sejam necessárias, a mulher e seu acompanhante devem igualmente receber informações claras sobre a natureza do procedimento e devem emitir seu consentimento livremente.

Sobre a aceitação dos alunos egressos pelos Conselhos de Enfermagem, existem decisões judiciais sobre essa questão. Não cabe ao COREN, COFEN, ou USP o posicionamento contra tais decisões. Tais entidades tampouco podem se recusar a acatar decisões da Justiça Brasileira.
Diante de todo o exposto, resta lamentar a falta de critério do Grupo de Trabalho, que redigiu seu relatório com base no senso comum e ignorou evidências científicas, experiências bem-sucedidas no exterior, recomendações da OMS, relatórios demográficos do Estado de São Paulo e o compromisso social da universidade.

A sociedade brasileira necessita urgentemente de melhorias na assistência à saúde materna, no sentido da humanização do parto e nascimento. Entendemos que as profissionais formadas no curso de Obstetrícia da USP Leste representam boa parte dessa demanda por melhorias. Deixamos aqui nosso apoio à continuidade do Curso de Obstetrícia da USP Leste, assim como de seu vestibular anual, com esperanças de que em pouco tempo essa seja também uma realidade de muitas universidades públicas e privadas de nosso país.